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quinta-feira, 7 de abril de 2016

Luís Andreu, o padre que morreu de felicidade.


A Igreja Católica mostra-se muito cuidadosa a respeito das manifestações sobrenaturais Marianas que ocorrem pelo mundo. Algumas são reconhecidas, como Fátima. Porém a cautela precisa existir. A Igreja aprovou as profecias de Nossa Senhora em Fátima, pois foram realizando-se uma a uma, conforme nós já sabemos.
Blog de exortacaoeavisos : EXORTAÇÕES, Luís Andreu, o padre que morreu de felicidade.
Porém, existem outras que estão sendo estudadas. Entre elas estão as manifestações ocorridas na Espanha, num vilarejo em Garabandal.
No dia  18 de junho de 1961, quatro meninas, de onze e doze anos de idade,  (Mari Loli Mazón, Jacinta Gonzalez, Mari Cruz Gonzalez e Conchita Gonzalez), brincavam juntas nos arredores, ao sul de aldeia, quando ouviram um barulho estranho, como um trovão. Diante delas, apareceu um anjo maravilhoso.
Tomadas de pânico, correram instintivamente em direção da igreja de Aldeia.  Suas faces transtornadas a pálidas despertaram a curiosidade e as insistentes perguntas de inúmeras pessoas.  E logo o caso de aparição propalou-se por toda parte. ( Não vou me deter nas aparições do anjo), mas ele anunciaria fatos que transformariam de vez a vida das meninas e de muitas pessoas.
 As jovens sabiam quando as visões iriam acontecer, por uma série de três chamadas (luminações) cada uma mais forte do qua a outra.  Após a terceira chamada, elas corriam para o lugar recluso, onde se deram as primeiras visões; ali prostrando-se de joelhos nas rochas ásperas pontiagudas, entravam em transe extático sobrenatural.  Suas cabeças derreavam para trás, as pupilas dos olhos dilatavam-se, suas faces perladas de suor  com impressionante expressão angélica. Mantinham-se, assim nesta posição durante algumas horas, sem entretanto demonstrarem sinais de esforço muscular e de fadiga. Assim ficavam insensíveis a picadelas de alfinetes, queimaduras com fósforos e contatos físicos. Mesmo quando, de noite, durante as visões, holofotes ofuscantes eram centrados sobre as faces das jovens, suas pupilas permaneciam imóveis dilatadas. Durante tais transes o peso das jovenzinhas ficava tão excessivo que dois homens adultos tinham dificuldade em levantar ema jovem de 12 anos. No entanto elas se levantavan, umas as outras, com a maior facilidade, para oferecerem um beijo a SSma. Virgem.

No dia  8 de Agosto de 1961, o Padre jesuíta Luís Andreu tinha visitado Garabandal pela segunda vez. Por ausência do pároco de Garabandal, ele ficou encarregadode celebrar a Santa Missa nesta aldeia. Após finalizar a Santa Missa, as meninas videntes entraram em êxtase e deslocaram-se a correr até aos “ pinos”. O Padre Luís Andreu mostrando interesse nestes acontecimentos, decidiu segui-las até lá. Pouco tempo depois, e sem esperar, o Padre Luís teve a visão de Nossa Senhora e do futuro Milagre de Garabandal. O Padre, gritou nesse momento as palavras: “ Milagre, Milagre!!!!…”.
O que o padre viu, segundo as meninas foi o futuro milagre que aconteceria na Igreja. Um milagre universal. O vídeo abaixo conta a respeito do Milagre e do Aviso de Garabandal. Por que não o torna público, para que o saibam todos os que vêm aqui? - pergunta-lhe alguém.
Estou cansada de dizer, ninguém faz caso. Outros esclarecimentos encontramos nas respostas a um questionário de 14 de setembro de 1965: "O Aviso é uma coisa que vem diretamente de Deus. Será visível no mundo inteiro, qualquer que seja o lugar onde alguém se encontre. Será como que a revelação (interior a cada um) dos nossos pecados. Vê-lo-ão e sentirão tanto os crentes quanto os não crentes de todos os países". E mais: "É como uma purificação para o Milagre. É como uma catástrofe. Fará com que pensemos nos mortos, ou seja, que prefiramos estar mortos a sofrer o Aviso".
Quando aos efeitos sobre o íntimo de cada um, Conchita explica: "O Aviso será uma correção de consciência do mundo... O Senhor o enviará para nos purificar, a fim de podermos apreciar melhor o Milagre, pelo qual prova-nos claramente o seu amor".
"Será como fogo. Não queimará a nossa carne, mas o sentiremos no corpo e no espírito. Todas as nações e todas as pessoas o sentirão da mesma forma. Ninguém escapará. E mesmo os não crentes conhecerão o temor de Deus. Mesmo que te metas em casa e feches a porta e os postigos, não escaparás; sentirás e verás, apesar de tudo. Sim, é verdade que a Virgem  disse-me o nome do fenômeno. Este nome existe no dicionário. Começa com A. Mas pediu-me para não revelar. " Um aspecto complementar das declarações de Conchita  é nos fornecido por Jacinta, em fevereiro de 1976: "O Aviso será de muito curta duração, alguns minutos; mas esse pouco tempo tornará-se-á tremendamente longo, pela dor que nos causará... Virá sobre nós como um fogo do céu, que repercutirá profundamente no interior de cada um. À sua luz veremos com toda a clareza o estado da nossa consciência, veremos o que significa perder a Deus, sentiremos a ação purificante de uma chama abrasadora. Em resumo, será como passar pelo juízo particular ainda em vida, na intimidade de cada um". Esta purificação tem por fim deixar-.nos em forma para o Milagre; de outra maneira, como poderíamos resistir à sobre-humana e maravilhosa experiência que haveremos de ter no Milagre? Talvez fosse por não ter passado previamente pelo Aviso que ocorreu a morte do padre Luís Andreu, horas depois de ter contemplado aquilo que nem as meninas ainda viram.
O Aviso, portanto, antecederá ao Milagre. Foi a visão do Milagre que provocou a morte do padre de tanta felicidade.
"Sinto-me verdadeiramente cheio de alegria, de felicidade. Que presente me deu Nossa Senhora! Que sorte nós temos por ter uma Mãe assim no céu!... Não devemos ter nenhum medo da vida sobrenatural... Temos de aprender a tratar a Virgem como fazem as meninas! Elas deram-nos esse exemplo!.. . Eu não posso ter a menor duvida sobre a verdade das suas visões...Porque nos escolheu a Santíssima Virgem?... HOJE É O DIA MAIS FELIZ DA MINHA VIDA".
Palavras o Papa Paulo VI:
"Garabandal é o acontecimento mais maravilhoso na Humanidade depois do nascimento de Jesus. É como uma segunda vida da Santíssima Virgem nesta terra. É importantíssimo dar a conhecer ao Mundo estas mensagens. Dizei-o a esses senhores [referindo-se aos opositores destas aparições marianas] que é o próprio Papa quem o diz: É importantíssimo dar a conhecer estas mensagens ao Mundo"

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Carta do além

Antes de ler a carta do além, pensei ser importante colocar a experiência  vivida por um exorcista. Num dos raros momentos em que o demônio falou com o padre.
O padre dizia-lhe que o mandaria de volta a um lugar bem quentinho que Deus preparou. O demônio respondeu:
__ Não sabes de nada.
E continuou: ___ Não foi Deus quem criou o inferno. Fomos nós. O inferno nem sequer passou pela cabeça de Deus. Nunca esteve nos planos dEle.

Com os homens, Deus se comunica por muitos modos. Além de ser a própria Sagrada Escritura a Carta Magna de Deus aos homens, escrita e transmitida por homens autorizados, narra ela muitas comunicações divinas feitas por visões, inclusive sonhos. Deus continua a prevenir, ainda, por sonhos. É que sonhos não são sempre meros sonhos sem base.
A Carta do Além transcrita abaixo conta a história da condenação eterna de uma jovem. À primeira vista parece uma história bastante romanceada. Bem consideradas, porém, as circunstâncias, chega-se à conclusão de que ela não deixa de ter o seu fundo histórico, como base do seu sentido moral e do seu alcance transcendental.
A carta em apreço foi encontrada tal qual entre os papéis de uma freira falecida, amiga da jovem condenada. Relata a freira os acontecimentos da existência da companheira como fatos históricos sabidos e verificados, e sua sorte eterna comunicada em sonho. A Cúria diocesana de Treves (Alemanha) autorizou sua publicação como sumamente instrutiva.
A Carta do Além apareceu primeiro em livro de revelações e profecias, juntamente com outras narrações. Foi o R. Pe. Bernhardin Krempel C. P., doutor em teologia, quem a publicou em separado e quem lhe emprestou mais autoridade, provando-lhe, nas Anotações, a absoluta concordância com a doutrina da Igreja Católica sobre o assunto.
No Apêndice seguem alguns esclarecimentos complementares sobre o Inferno. O primeiro ponto assinala dois trabalhos literários que por caminhos diferentes chegam à mesma conclusão que o Inferno deve existir e que de fato existe. Nos seguintes pontos expõe-se sumariamente quais são os que trilham o caminho do Inferno e quais os meios que temos à mão para nos salvar do maior perigo da vida, de cair no Inferno.

Informações preliminares

Entre os papéis deixados por uma jovem que morreu num convento como freira, foi encontrado o seguinte depoimento:
"Tinha eu uma amiga. Quer dizer, éramos mutuamente achegadas como companheiras e vizinhas de trabalho no mesmo escritório M.
Quando mais tarde Âni se casou, nunca mais a vi. Desde que nos conhecêramos, reinava entre nós, no fundo, mais amabilidade que amizade.
Por isso eu sentia dela pouca falta, quando, após seu casamento, ela foi morar no bairro elegante das vilas, bem longe do meu casebre.
Quando no outono de 1937 passei minhas férias no lago Garda, minha mãe escreveu-me, em meados de setembro: "Imagine, Âni N. morreu. Num desastre de automóvel perdeu a vida. Ontem foi enterrada no cemitério do Mato".
Essa notícia espantou-me. Sabia eu que Âni nunca fora propriamente religiosa. Estava ela preparada, quando Deus a chamou de repente?
Na outra manhã assisti na capela da casa do pensionato das irmãs, onde eu morava, à santa missa em sua intenção. Rezava fervorosamente por seu descanso eterno e nessa mesma intenção ofereci também a Santa Comunhão.
Mas o dia todo eu sentia certo mal estar, que foi aumentando mais ainda pela tarde.
Dormia inquieta. Acordei de repente, ouvindo como se sacudida a porta do quarto. Liguei a luz. O relógio, no criado mudo, marcava meia noite e dez minutos. Nada, porém, eu podia ver. Nenhum barulho havia na casa. Apenas as ondas do lago Garda batiam, quebrando-se monotonamente, no muro do jardim do pensionato. De vento, nada eu ouvia.
Tinha eu, todavia, a impressão de que ao acordar eu tivesse percebido, além das batidas na porta, um ruído como que de vento, parecido ao do meu chefe de escritório, quando mal humorado me atirava uma carta amolante sobre a escrivaninha.
Refleti um momento, se devia levantar-me.
Ah! Tudo não passa de cisma, disse-me resoluta. Não é senão produto de minha fantasia sobressaltada pela notícia da morte. Virei-me, rezei alguns Pai-Nossos pelas almas, e adormeci de novo.
Sonhei então que me levantava de manhã às 6 horas, indo à capela da casa. Quando abri a porta do quarto, dei com o pé num maço de folhas de carta. Levantá-las, reconhecer a escrita de Âni e dar um grito, foi coisa de um segundo.
Tremendo, segurei as folhas nas mãos. Confesso que fiquei tão apavorada, que nem podia proferir o Pai-Nosso. Fiquei presa de uma quase sufocação. Nada melhor que fugir dali e ir-me para o ar livre. Arranjei malmente os cabelos, pus a carta na bolsa e saí à pressa de casa.
Fora, subi o caminho que seguiu tortuoso para cima, por entre oliveiras, loureiros e quintas de vilas, e para além da mundialmente célebre estrada "Gardesana".
A manhã despontava radiante. Nos outros dias eu parava a cada cem passos, encantada pela magnífica vista que me ofereciam o lago e a magnificamente bela ilha Garda. O suavíssimo azul da água refrescava-me; e como uma criança olha admirada para o avô, assim eu olhava sempre admirada de novo o cinzento monte Baldo que se ergue na margem oposta do lago, crescendo de 64 m acima do nível do mar até 2.200 m de altura.
Hoje eu não tinha olhos para tudo isso. Depois de caminhado um quarto de hora, deixei-me cair maquinalmente sobre um banco encostado em dois ciprestes, onde, no dia anterior, eu tinha lido prazerosamente "A donzela Teresa". Pela primeira vez eu via nos ciprestes símbolos da morte, coisa que neles nunca reparava no Sul, onde tão freqüentemente se encontram.
Peguei a carta. Faltava-lhe a assinatura. Sem a mínima dúvida era a escrita de Âni. Nem mesmo faltavam nela a grande "S"-voluta, nem o "T" francês, a que se havia acostumado no escritório para irritar o Sr. G.
O estilo não era o dela. Pelo menos não falava como de costume. Sabia ela tão amavelmente conversar e rir com seus olhos azuis e seu gracioso nariz.
Somente quando discutíamos assuntos religiosos é que ela se tornava mordaz e caía no rude tom da carta. (Eu própria entrei agora na excitada cadência da mesma).
Eis aí.

A CARTA DO ALÉM DE ANI, V.,

Palavra por palavra, tal qual a li no sonho:

"Clara! Não rezes por mim. Sou condenada. Se te comunico isso e se a respeito de algumas circunstâncias da minha condenação te dou pormenorizadas informações, não creias que eu o faça por amizade. Aqui não amamos a ninguém mais. Faço-o, como "Parcela daquele Poder que sempre quer o Mal e sempre produz o Bem".
Em verdade, eu queria também ver-te aqui, onde eu para sempre vim parar. [S. Tomas de Aquino, Summa Theológica (S. Th.) Supplementum (Suppl.) q. 98, a. 4: "Os réprobos querem que todos os bons sejam condenados".
Não estranhes esta minha intenção. Aqui pensamos todos da mesma forma. A nossa vontade está petrificada no mal - no que vós chamais "mal". Mesmo quando fazemos algo de "bem", como eu agora, descerrando-te os olhos sobre o Inferno, não o fazemos com boa intenção.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 1: "Neles o autodeterminado querer é sempre de todo perverso".
Lembra-te ainda:
Fez 4 anos que nos conhecemos, em M. Tinhas 23 anos e já trabalhavas no escritório havia meio ano, quando lá entrei.
Tiravas-me bastante vezes de embaraços; davas-me a mim, principalmente, freqüentes bons avisos. Mas que é que se chama "bom"!
Eu louvava, então tua "caridade". Ridículo... Tuas ajudas provinham de pura ostentação, como, aliás, eu já suspeitava.
Nós aqui não reconhecemos bem algum em ninguém!
Conheceste minha mocidade. Cumpre preencher, aqui, certas lacunas.
Conforme o plano de meus pais, eu não devia nunca haver existido. Aconteceu-lhes um descuido, a desgraça da minha concepção.
Minhas duas irmãs já tinham 15 e 14 anos, quando eu vim à luz.
Oxalá nunca eu tivesse nascido! Oxalá pudesse eu agora aniquilar-me, fugir a esses tormentos! Não há volúpia comparável à de acabar minha existência, como se reduz a cinzas um vestido, sem mesmo deixar vestígios.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 3, r. ib. ad 3:
"Enquanto a inexistência liberta de uma vida de terríveis castigos, seria ela para os condenados um bem maior do que sua miserável existência... Assim desejam a não existência."]
Mas é preciso que eu exista; é preciso que eu seja tal como eu me tenho feito: com a falha total da finalidade da minha existência.

Quando meus pais, ainda solteiros, mudaram-se da roça para a cidade, perderam o contato com a Igreja.
Assim era melhor.
Mantinham relações com pessoas desligadas da religião. Conheceram-se num baile e viram-se "obrigados" a casar meio ano depois.
No ato do casamento pegaram neles só algumas gotas de água benta, suficientes apenas para atrair mamãe à missa domingueira raríssimas vezes por ano.
Nunca ela me ensinava a rezar direito. Esgotava-se nos cuidados de cada dia, ainda que a nossa situação não fosse ruim.
Semelhantes palavras como rezar, missa, água benta, igreja, só escrevo com íntima repugnância, com incomparável nojo. Detesto profundamente os freqüentadores de igreja, assim como todos os homens e coisas em geral.
Tudo se nos torna tormento. Cada conhecimento recebido ao falecer, cada lembrança da vida e do que sabemos, se transforma numa flama incandescente.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 7, r.:
"Nada há nos réprobos, que não lhes seja matéria e causa de tristeza... Assim dirigindo sua atenção sobre coisas conhecidas".]

E todas essas lembranças nos mostram aquele medonho lado que fora uma graça que desprezamos. Como isso atormenta! Não comemos, não dormimos, nem andamos com as pernas. Espiritualmente acorrentados, nós réprobos, fitamos estarrecidos a nossa vida falhada, uivando e rangendo os dentes, atormentados e cheios de ódio.
Ouves tu? Bebemos aqui ódio como água. Odiamo-nos mutuamente.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 4, r.: "Nos réprobos domina um ódio total".]
Mais do que tudo, odiamos a Deus. Procuro tornar-te isso compreensível.
Os bem aventurados no Céu devem amá-Lo. Porque O vêem desveladamente em Sua arrebatadora beleza. Isso torna-os indescritivelmente felizes. Sabemos isso e é esse conhecimento que nos torna furiosos.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 9, r.:
"Ante o dia do juízo universal sabem os réprobos que os bem aventurados se encontram numa inefável glória."]
 Os homens, na terra, que conhecem Deus pela criação e revelação podem amá-Lo; não são forçados a fazê-lo.
O crente - furiosa eu te digo aqui - que contempla, meditando, cristo estendido na cruz, O amará.
Mas a alma de quem Deus se acerca, fulminante, como vingador e justiceiro, como Quem foi repelido, essa O odeia, como nós O odiamos.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 8, ad 1, ib. ad 5, r.:
"Os réprobos só enxergam em Deus o castigador e impedidor (do mal, que desejam ainda fazer). Mas como só O enxergam no castigo, efeito da sua justiça, odeiam-nO".]
Odeia-O com toda a força de sua má vontade. Odeia-O eternamente. Em virtude da deliberada resolução de ficar afastada de Deus, com que terminou a vida terrena. E essa perversa vontade, não podemos revogá-la mais, nem jamais quereremos revogá-la.
Compreendes tu agora por que o Inferno há de ser eterno? Porque a nossa obstinação nunca derrete, nunca termina.
Forçada acrescento que Deus é propriamente ainda misericordioso para conosco. Disse "forçada". A razão é esta: ainda que voluntariamente escreva esta carta, não me é possível mentir, como eu bem queria. Assento no papel muitas informações contrariamente à minha vontade. Também a corrente de injúrias que queria despejar, tenho de reengolí-la.
Deus era misericordioso para conosco pelo que não deixou a nossa vontade produzir e efetivar na Terra todo o mal que desejávamos fazer. Se Ele nos tivesse deixado a esmo, teríamos aumentado muito a nossa culpa e castigo. Deixou-nos morrer prematuramente - como a mim - ou introduziu circunstâncias atenuantes.
Agora Ele se nos torna misericordioso por que não nos obriga a nos aproximar Dele, porém a ficarmos neste lugar distante do Inferno, diminuindo-nos o tormento.[S. Th. I, q. 21, a. ad. 1.:
"Na condenação dos réprobos aparece a misericórdia de Deus... , no que os castiga menos do que merecem".
- Em outro lugar nota o santo doutor da Igreja, que isso é o caso sobretudo com os que neste Mundo eram misericordiosos para com os outros (S. Th. Suppl. q. 99, a. 5, ad 1.)]

Cada passo mais perto de Deus dar-me-ia maior sofrimento do que a ti um passo mais perto de uma fogueira.
Ficaste espantada um dia quando te contei, em passeio, o que meu pai me dissera alguns dias antes da minha primeira comunhão:
"Cuida, Anita, que ganhes bonito vestido; o mais não passa de burla".

Quase me teria mesmo envergonhado do teu espanto. Agora rio-me disso. O mais bem feito, em toda essa burla, era permitir-se a comunhão apenas aos 12 anos. Eu já estava, então, assaz possuída do prazer do mundo, que postergava facilmente tudo quanto era religião, e não levei a comunhão a sério.
O novo costume de deixar as crianças receberem a comunhão aos 7 anos põe-nos furiosos. Envidamos todos os meios para burlar isso, fazendo crer que para comungar cumpre haver compreensão. É preciso que as crianças já tenham cometido antes alguns pecados mortais. O "branco" Deus será menos prejudicial, então, do que recebido quando a fé, a esperança e o amor, frutos do batismo - escarro sobre tudo isso - ainda estão vivos no coração da criança.
Lembras-te que já sustentei esse mesmo ponto de vista na Terra?
Torno a meu pai. Ele brigava muito com minha mãe. Raras vezes te frisei isso: tinha vergonha. Ah! que é vergonha? Coisa ridícula! A nós tudo nos é indiferente.
Meus pais não dormiam mais no mesmo quarto. Eu dormia com minha mãe, papai no quarto ao nosso lado, aonde podia voltar a qualquer hora da noite. Ele bebia muito e gastou a nossa fortuna. Minhas irmãs estavam empregadas e precisavam do seu próprio dinheiro, como diziam. Mamãe começou a trabalhar. No último ano de sua amargurada vida, papai batia em mamãe muitas vezes, quando não lhe queria dar dinheiro. Para mim ele era sempre bonzinho. Um dia, contei-te isso e ficastes escandalizada sobre o meu capricho - e de que não te escandalizastes em mim? - um dia, pois, devolveu duas vezes sapatos novos, porque a forma dos saltos não me era bastante moderna.[Os assinalados traços sobre o pai de Âni e as ocorrências subsequentes são fatos.]
Na noite em que uma apoplexia vitimou meu pai mortalmente, aconteceu algo que nunca te confiei, por temer desagradável interpretação de tua parte. Hoje, porém, deves sabê0lo. Esse fato é memorável, porque foi pela primeira vez que o meu atual espírito carrasco se acercou de mim.
Eu dormia no quarto de minha mãe. Suas respirações regulares denotavam seu profundo sono.
De repente ouvi chamar meu nome. Uma voz desconhecida murmurou: "Que acontecerá, se teu pai morrer?"
Eu não amava mais meu pai, desde que ele começara a maltratar minha mãe. Já não amava propriamente ninguém: só me prendia a alguns que eram bons para mim. - Amor sem intuito natural existe quase só nas almas que vivem em estado de graça. Nele eu não vivia.
Respondia assim ao misterioso interlocutor: "Com certeza ele não morre".
Após breve intervalo, ouvi a mesma bem compreendida pergunta sem me incomodar de saber, de onde provinha.
"Qual o que! Ele não está morrendo" escapou-me casmurra.
Pela terceira vez fui interrogada: "Que acontecerá se teu pai morrer?"
De relance me surgiu no espírito como meu pai freqüentes vezes voltava para casa meio bêbado, ralhando e brigando com mamãe e quanto ele nos envergonhava perante os vizinhos e conhecidos!
Gritei, então embirrada: "Pois não, é quanto merece! Que morra!"
Depois, ficou tudo quieto.
Na manhã seguinte, quando mamãe foi para arrumar o quarto de papai, encontrou a porta fechada. Ao meio dia abriram-na à força. Papai encontrava-se meio vestido em cima da cama - morto, um cadáver. Ao procurar cerveja na adega, deve se ter resfriado. Desde muito, estava adoentado. - (Será que Deus fez depender da vontade de uma criança, a quem o homem demonstrava bondade, o conceder-lhe mais tempo e ocasião para se converter?)
Marta K. e tu me fizestes ingressar na associação das moças. Nunca te escondi que achava as instruções das duas diretoras, duas senhoras X., assaz vigaristas. Achava os jogos bastante divertidos. Conforme sabes, cheguei, em breve, a sustentar nele papel preponderante. Isso era o que me lisonjeava. Também as excursões me agradavam. Deixei-me até levar algumas vezes a confessar-me e comungar. Propriamente não tinha nada para confessar. Pensamentos e sentimentos comigo não entravam em conta. Para coisas piores eu não estava madura ainda.
Admoestaste-me um dia:
"Âni, se não rezares mais, perder-te-ás".
Eu rezava realmente muito pouco; e também só contrariada, de má vontade.

Tinhas tu, sem dúvida, razão. Todos os que no Inferno ardem, não rezaram, ou não rezaram bastante. A oração é o primeiro passo para Deus. Sempre decisivo. Mormente a oração para aquela que é a mãe do Cristo, cujo nome não nos é lícito pronunciar. A devoção a Ela arranca ao demônio inúmeras almas, que os pecados lhe teriam infalivelmente atirado às mãos.
Furiosa continuo - por ser forçada: rezar é o mais fácil que se pode fazer na Terra. Justamente a essa facilidade Deus ligou a salvação.
A quem reza com a assiduidade, Deus dá, paulatinamente, tanta luz e fortalece-o tanto que o mais afogado bode de pecador se pode definitivamente levantar pela oração, ainda que esteja submerso na lama até o pescoço.
Nos últimos anos da vida eu deveras não rezava mais e assim me privava das graças, sem as quais ninguém se pode salvar.
Aqui não recebemos mais graça alguma. Mesmo que a recebêssemos, com escárnio a rejeitaríamos. Todas as vacilações da existência terrestre acabaram no além.
Na vida terrena pode o homem passar do estado de pecado para o estado de graça. Da graça pode cair no pecado. Freqüentes vezes caí por fraqueza; raramente por maldade. Com a morte, terminou essa inconstância do sim e do não, caindo e levantando-se. Pela morte, cada um entra no estado final, fixo e inalterável.
À medida que avança a idade, tornam-se menores os saltos. É verdade que, até à morte, a gente se pode converter a Deus ou virar-Lhe as costas. No morrer se decide o homem, entretanto, com as últimas tremuras da vontade, maquinalmente, tal como se acostumara na vida.
Bom ou mau hábito tornou-se uma segunda natureza. Esta o arrasta no derradeiro momento. Assim também arrastou à mim. Anos inteiros eu vivera afastada de Deus. Consequentemente, decidi-me no último chamamento da graça, contra Deus. Não que o haver pecado muitas vezes me fosse uma fatalidade, mas porque eu não me queria mais levantar.
Repetidas vezes me admoestaste a assistir à pregação e a ler livros devotos. Eu escusava-me regularmente com a falta de tempo. Havia eu de aumentar ainda mais a minha incerteza íntima?
Cumpre-me aliás afirmar: Quando cheguei a esse ponto crítico, pouco antes da minha saída da associação das moças, ter-me-ia sido muito difícil enveredar por outro caminho. Sentia-me insegura e infeliz. Diante da minha conversão, levantou-se um paredão. Deves tê-lo desapercebido. Tu o tinhas imaginado tão fácil, quando uma vez me disseste:
"Faça, pois, uma boa confissão, Âni, e tudo ficará bem".

Eu suspeitava que assim fosse. Mas o mundo, o demônio e a carne já me seguravam nas suas garras.
Na atuação do demônio eu não acreditava nunca. Agora atesto que, a pessoas como eu então era, o demônio influencia poderosamente.A influência dos maus espíritos encerra-se nos apelidos "demônio" ou "diabo". Como comprovação da sua existência bastam dois textos da S. Escritura:
"Irmãos, sede sóbrios e vigiai! Vosso inimigo, o demônio, anda por aí como um leão rugindo e procurando a quem puder devorar".(1 Petr. 5, 8).
O rugir não se refere ao que satanás faz muito alarme com as suas tentações, porém à avidez com que ele nos procura perder. - S. Paulo escreve aos Efésios (*, 12):
"Ponde a armadura de Deus, para que possais resistir às astúcias do demônio. Nossa luta não é contra carne e sangue (homens), porém contra os poderes dos tenebrosos dominadores deste Mundo e contra os maus espíritos dos ares."

Só muitas orações alheias e as minhas próprias, juntamente com sacrifícios e sofrimentos, teriam conseguido arrancar-me dele.
E isso deveras só paulatinamente. Poucos possessos. O demônio não pode tirar o livre arbítrio àqueles que se entregam à sua influência. Contudo, como castigo de sua apostasia quase total de Deus, Este permite que o "Mau" neles se aninhe.
Odeio também o demônio. Todavia gosto dele, porque ele procura perder-vos: ele e seus auxiliares, os anjos caídos com ele desde os princípios do tempo. Há miríades. Vagueiam pela terra inúmeros como enxames de moscas, sem que sejam suspeitados.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 6, ad 2:
"Não é tarefa dos homens condenados, perderem e tentarem outros, porém dos demônios."

A nós homens réprobos não nos incumbe de vos tentar; isso cabe aos espíritos caídos.
Aumentam, sim, ainda mais os seus tormentos toda vez que arrastam uma alma humana ao Inferno. Mas de que não é capaz o ódio![S. Th, q. 98, a. 4, ad 3:
"O crescente número dos réprobos aumenta ainda os sofrimentos de todos. Mas são de tal modo cheios de ódio e inveja, que antes querem sofrer mais com muitos, do que menos sozinhos."

Ainda que eu andasse por veredas tortuosas, Deus me procurava. Eu preparava o caminho à graça, por serviços de caridade natural, que por inclinação de minha índole, não raras vezes prestava.
Às vezes atraía-me Deus para uma Igreja. Lá eu sentia certa nostalgia. Quando cuidava da minha mãe doente, apesar do meu trabalho no escritório durante o dia, e sacrificava-me realmente um tanto, atuavam sobre mim poderosamente essas atrações de Deus.
Uma vez - foi na capela do hospital, aonde me levaste no tempo livre de meio dia - fiquei tão impressionada, que me encontrei a um passo apenas da minha conversão. Eu chorava.
Em seguida, porém, vinha o prazer do mundo derramar-se, como uma torrente, por sobre a graça. Os espinhos aforaram o trigo. Com a explicação de que religião é sentimentalismo conforme sempre se dizia no escritório, lancei também essa graça, como outras, debaixo da mesa.
Repreendestes-me um dia que, em vez de genuflexão, fiz numa igreja uma ligeira inclinação da cabeça. Tomastes isso como preguiça e não parecias suspeitar de que, já então, não acreditava mais na presença de Cristo no Sacramento. Agora creio nela, porém só naturalmente, como se acredita em tempestade, cujos sinais e efeitos se percebem.
Nesse ínterim, havia-me arranjado, eu própria, uma religião. Agradou-me a opinião generalizada no escritório, de que, após a morte, a alma voltaria para este Mundo em outro ser e passaria por outros e mais outros seres, numa sucessão sem fim.
Com isso liquidei o angustiante problema do além e imaginava tê-lo tornado inofensivo.
Por que não me lembraste a parábola do gozador rico e do pobre Lázaro, em que o narrador, Cristo, imediatamente após a morte, mandou um para o Inferno, o outro para o Paraíso? Mas o que terias conseguido? Nada mais do que com tuas demais palavras beatas.
Aos poucos eu própria arranjei um deus: bem privilegiado para se chamar deus; a mim bastante longe para não me obrigar a relações com ele; assas confuso, para se transformar, à vontade e sem mudar de religião, num deus panteístico ou até tornar-me orgulhosa deísta.
Esse "deus" não tinha um céu para me galhardear nem inferno para amedrontar-me. Deixei-o em paz. Nisso consistia a minha adoração a ele.
No que se ama, acredita-se facilmente. No curso dos anos tinha-me eu assaz persuadido da minha religião. Vivia-se bem com ela, sem que ela me incomodasse.
Só uma coisa lhe teria quebrado a nuca: uma dor profunda, prolongada. Mas este sofrimento não veio. Compreende agora:
"A quem Deus ama, Ele castiga!"

Era um dia de estio, em julho, quando a associação das moças organizava uma excursão para A. Gostava eu sim das excursões. Mas não das beatarias anexas!
Outra imagem, diferente da de Nossa Senhora das Graças de A., estava, desde pouco, no altar do meu coração. O grã-fino Max N. do armazém ao lado. Pouco antes conversáramos divertidamente algumas vezes. Convidara-me, nessa ocasião, para fazermos uma excursão naquele mesmo domingo. A outra com que costumava andar, estava no hospital.
Reparara, sim, que eu tinha deitado um olhar sobre ele. Mas eu não pensava ainda em casar-me com ele. Era afortunado, porém amável demais para com muitas e quaisquer mocinhas; até então eu queria um homem que me pertencesse exclusivamente, como única mulher. Certa distância sempre me era própria. [Isso era verdade. Com toda a sua indiferença religiosa Âni tinha algo de nobre em seu ser. Espanto-me de que também pessoas "honestas" possam cair no Inferno, se são assaz desonestas para fugirem do encontro com Deus]
Nessa excursão, Max cumulou-me de todas as amabilidades. Conversações de beatas é que não tivemos, como vocês.
No outro dia, no escritório, repreendestes-me porque não vos acompanhei até A. Contei-te os meus divertimentos domingueiros.
Tua primeira pergunta era:
"Estivestes na missa?"
Louca! Como podia assistir à missa, desde que combinamos a saída para 6 horas! Lembras-te, ainda, que juntei excitada:
"O bom deus não é tão mesquinho como os vossos padrecos?"
Agora, cumpre-me confessar-te que, apesar de sua infinita bondade, Deus toma tudo mais a sério do que os padres.

Após esse primeiro passeio com Max, assisti mais uma só vez à vossa reunião. Na solenidade de Natal. Certas coisas me atraíam. Mas interiormente, já estava apartada de vocês.
Cinemas, bailes, excursões, seguiam-se. Brigávamos às vezes, Max e eu, mas eu sabia prendê-lo sempre a mim.
Mui desagradável me foi a rival que, de volta do hospital, se comportava furiosamente. Propriamente a meu favor. Minha calma distinta causou grande impressão a Max e obrigou-lhe, afinal, a decisão de me preferir.
Eu sabia denegri-la, rebaixá-la. Falando com calma: por fora, realidades objetivas; por dentro, atirando peçonha. Semelhante sentimentos e insinuações conduzem rapidamente ao Inferno. São diabólicos, no verdadeiro sentido da palavra.
Por que te conto isso? Para constar como fiquei definitivamente livre de Deus.
Para esse afastamento não foi preciso que eu chegasse com Max muitas vezes às últimas familiaridades. Compreendi que me rebaixaria aos seus olhos, se me deixasse esvaziar antes do tempo. Por isso me retinha, vedava.
Realmente estava eu sempre pronta para tudo que achava útil. Cumpria-me conquistar Max. Para isso nada achava caro de mais. Amamo-nos aos poucos, pois que ambos possuíamos valiosas qualidades que podíamos apreciar mutuamente. Fui talentosa e tornei-me hábil e conversadora. Cheguei, assim, a prender Max nas mãos, segura de que o possuía sozinha, pelo menos nos últimos meses antes do casamento.
Nisso consistia minha apostasia de Deus, em fazer de uma criatura o meu deus. Em coisa alguma pode isso realizar-se tão plenamente como entre pessoas de diferentes sexo, se o amor se afoga na matéria. Isso torna-se seu encanto, seu aguilhão e seu veneno. A "adoração" que eu me prestava em Max, tornou-se-me uma religião vivida..
Era no tempo quando, no escritório, tão virulentamente eu caia em cima das corridas à igreja, dos padrecos, do murmurejar de rosário e das demais bugigangas.
Emprenhastes-te, mais ou menos inteligentemente, em proteger tudo isso; aparentemente sem suspeitares de que para mim, em última análise, não se tratava dessas coisas, mas propriamente de ponto de apoio contra minha consciência que eu estava procurando - dele eu precisava ainda - para justificar racionalmente a minha apostasia.
No fundo eu vivia revoltada contra Deus. Tu não percebias isso. Sempre me consideravas ainda católica. Como tal, queria eu também ser chamada; até mesmo pagava a contribuição para a igreja. Certa "ressalva" não me podia fazer mal, pensava eu.
Por mais certas que às vezes fossem tuas respostas, de mim ressaltavam, porque tu não devias ter razão. Em face dessas nossas relações entrecortadas a dor da nossa separação era pequena, quando meu casamento nos distanciou.
Antes do meu casamento, confessei-me e comunguei mais essa vez. Era uma formalidade. Meu homem pensava como eu. De resto, por que não haveríamos de satisfazê-la? Cumprimo-la como qualquer outra formalidade.
Vós o chamais "indigno". Após aquela "indigna" comunhão eu tinha mais sossego de consciência. Era essa a última.
Nossa vida matrimonial decorria, em geral, em boa harmonia. Em quase todos os pontos tínhamos a mesma opinião. Também nisso: não nos queríamos impor o encargo de filhos. No fundo, meu marido desejava ter um - naturalmente não mais. Eu soube arrancar-lhe, finalmente, essa idéia. Eu gostava mais de vestidos e mobílias finas, de tertúlias de chá, de passeios de automóvel e de semelhantes divertimentos.
Era um ano de prazeres terrenos entre o casamento e minha repentina morte.
Cada domingo passeávamos de automóvel ou visitávamos parentes de meu esposo. (De minha mãe eu me envergonhava então). Esses nadavam bem como nós, na superfície da existência.
Interiormente, porém, nunca me sentia deveras feliz. Algo roía-me sempre na alma. Eu desejava que pela morte, a qual sem dúvida havia de demorar muito tempo ainda, tudo acabasse.
Mas é como em criança eu ouvira uma vez falar, em sermão, que deus recompensa já neste Mundo o bem que alguém pratica. Se não pode recompensá-lo no outro mundo, fá-lo na Terra.
Sem o esperar, recebi uma herança (da tia Lote). Meu marido teve a sorte de ver o seu salário consideravelmente aumentado. Assim pude instalar mimosamente a nossa casa nova.
Minha religião estava às últimas, como um vislumbre do ocaso no firmamento longínquo. Os bares e cafés da cidade e os restaurantes por onde passávamos nas viagens, não nos aproximaram de Deus.
Todos os que lá freqüentavam, vivam como nós: de fora para dentro, não de dentro para fora.
Visitando uma célebre catedral, nas viagens de férias, procurávamos deleitar-nos com o valor artístico das obras primas. O sopro religioso que irradiavam, mormente as da Idade Média, eu sabia neutralizá-lo, escandalizando-me em qualquer circunstâncias da visita. Assim, a um irmão leigo que nos conduzia, eu criticava o estar um tanto sujo e desajeitado; criticava o comércio de piedosos monges que fabricavam e vendiam licor; criticava as eternas badaladas dos sinos chamando para igrejas, onde se trata apenas de dinheiro.
Assim eu conseguia afastar de mim a graça, cada vez que me batia à porta.
Mormente deixava meu mau humor derramar-se livremente sobre tudo que tratava de antigas representações do Inferno em livros, cemitérios e outros lugares, onde se viam os demônios fritarem as almas em fogo vermelho ou amarelo, e seus sócios, de cauda comprida, trazerem-lhes mais e mais vítimas.
Clara, o Inferno pode ser mal desenhado, porém nunca ser exagerado.
Sobretudo escarnecia eu sempre do foto do Inferno. Lembras-te como numa conversa sobre isso eu te meti um fósforo aceso debaixo do nariz burlando: "É assim que cheira!"
Tu apagaste tão logo a chama. Aqui ninguém a extingue. Digo-te mais: o fogo de que fala a Bíblia, não significa tormento de consciência. Fogo significa fogo. Cumpre entendê-lo em sentido real, quando Aquele declarou: "Afastai-vos de mim, vós, malditos, ide para o fogo eterno". Literalmente!
Como pode o espírito ser tocado pelo fogo material? Perguntas.
Como então pode, na Terra, tua alma sofrer, segurando teu dedo na chama?
Tua alma também não se queima, mas que dor tem de aturar o homem todo!
Semelhantemente estamos nós aqui presos ao fogo em nosso ser em nossas faculdades. Nossa alma fica privada do seu vôo natural; não podemos pensar nem querer o que queremos.[S. Th. Suppl. q. 70, a. 3, r.:
"O fogo do Inferno atormenta o espírito pelo que o impede de executar o que quer; não pode atuar onde quer e quanto quer."]

Não procures esclarecer o mistério contrário às leis da natureza material: o fogo do Inferno queima sem consumir.
O nosso maior tormento consiste em que sabemos exatamente que nunca veremos Deus.
Quanto pode torturar o que na terra nos era indiferente! Enquanto a faca está em cima da mesa, deixa-te fria. Vês-lhe o fio, porém não o sentes. Mas entra a faca na carne e gritarás de dor.
Agora sentimos a perda de Deus; antes só a vimos.
["A separação de Deus é um tormento tão grande como Deus"
(Frase atribuída a S. Agostinho. Cf. Houdry, Biblioteca concionatorum - Veneza, 1786, vol. 2, sob Infernus, § 4, p. 427)]

Todas as almas não sofrem igualmente. Quanto mais frívolo, maldoso e decidido alguém foi no pecar, tanto mais lhe pesa a perda de Deus, e tanto mais torturado se sente pela criatura abusada.
Os católicos condenados sofrem mais do que os de outra crença, porque receberam e desaproveitaram, em geral, mais luzes e mais graças.
Quem sabia mais, sofre mais do que aquele que menos conhecimentos tinha.
Quem pecou por maldade sofre mais do que aquele que caiu por fraqueza.
Mas nenhum sofre mais do que mereceu. Oxalá isso não fosse verdade, para que eu tivesse motivo para odiar!
Tu me disseste um dia: ninguém cai no Inferno sem que o saiba. Foi isso revelado a uma santa. Ria eu disso, no entanto me entrincheirava atrás desta reflexão: nesse caso me ficaria suficiente tempo para me converter - assim eu pensava no íntimo.
O enunciado calha. Antes do meu fim repentino, de certo não conhecia o Inferno tal qual é. Nenhum ente humano o conhece. Mas eu estava exatamente inteirada disso: Se tu morreres, entrarás na eternidade como revoltada contra Deus. Suportarás as conseqüências.
Conforme declarei já, não voltei atrás, mas perseverei na mesma direção, arrastada pelo costume, com que os homens agem tanto mais calculada e regularmente, quanto mais velhos ficam.
Minha morte ocorreu do seguinte modo:
Há uma semana - falo de acordo com a vossa contagem, porque calculada pelas dores, eu poderia já estar ardendo no Inferno havia dez anos - faz pois uma semana que meu marido e eu fizemos, num domingo, uma excursão, que foi a última para mim.
Radiante despontara o dia. Eu sentia-me bem, como raras vezes. Perpassou-me, porém, um sinistro pressentimento..
Inesperadamente, na viagem de volta, meu marido que vinha guiando o carro, e eu ficamos ofuscados pela luz de um automóvel que vinha em sentido contrário e com grande velocidade. Meu marido perdeu a direção.
Jesus! Estremeci. Não como oração, mas como grito. Sentia uma dor esmagadora por compressão - uma bagatela em comparação com o tormento atual. Perdi então os sentidos.
Estranho! Naquele manhã mesma, nascera-me inexplicavelmente a idéia: poderias, enfim, mais uma vez ir à missa. Soava-me como súplica. Claro e decidido cortou meu "Não" o fio da idéia. Com isso devo acabar definitivamente. Tomo sobre mim todas as conseqüências. Agora as suporto.

O que aconteceu após a minha morte, tu conheces. A sorte de meu marido, de minha mãe, do meu cadáver e enterro, tudo te é conhecido até nos pormenores, como sei por uma intuição natural que todos nós temos.
Do mais que acontece no Mundo, só temos um conhecimento confuso. Mas o que nos tocava de perto conhecemos. Assim conheço também teu paradeiro.
["As almas de falecidos não têm seguro conhecimento de pormenores, porém apenas um enuviado conhecimento geral da natureza material". (S. Th. Suppl. q. 98, a. 3).]

Acordei das trevas no momento da minha morte. Vi-me de repente envolvida de luz ofuscante. Era no mesmo lugar onde estava o meu cadáver. Aconteceu como em teatro, quando de repente apagam as luzes, a cortina é ruidosamente removida e aparece a cena tragicamente iluminada: a cena de minha vida.
Como num espelho, assim eu vi minha alma. Vi as graças pisadas aos pés, desde a juventude até o último "Não" dado a Deus.
Apossou-se de mim a impressão como que de assassino levado ao tribunal à frente da sua vítima inanimada. - Arrepender-me? Nunca! [S. Th. Suppl. q. 98, a. 2, r.:
"Os maus não se arrependem propriamente dos pecados, por lhes serem afeitos maliciosamente. Arrependem-se, porém enquanto são castigados pelas penas dos pecados".] - Envergonhar-me? Jamais!

Entretanto nem me era possível permanecer na vista de Deus, negado e reprovado por mim. Restava-me uma só coisa: a fuga.
Assim como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim minha alma se atirou longe desse aspecto horrível.
Esse era o Juízo particular.
O invisível juiz falou: "Afasta-te!" Logo caiu minha alma, como uma sombra sulfúrica, no lugar do tormento eterno.
[ "É certo que o Inferno é um local determinado. Mas onde esse local fica situado, ninguém o sabe."
 A eternidade das penas do Inferno é um dogma: seguramente o mais terrível de todos. Tem suas raízes na S. Escritura. Cf. Mt. 25, 41 e 46; 2 Thess. 1, 9; Jud. 13; Apoc. 14, 11 e 20, 10; todos eles são textos irrefutáveis, em que "eterno" não se deixa trocar e interpretar por "longo".
Se não fora conveniente ilustrar esse dogma num caso particular, nem o próprio Nosso Senhor teria pedido fazê-lo na parábola do rico folgazão e do pobre Lázaro. Lá fez o mesmo que aqui vem feito: desenhou o Inferno e como se pode cair nele. Não o fez por prazer sensacional, porém levado pela mesma intenção que ocasionou esta publicação. A finalidade deste folheto encontra sua expressão no seguinte conselho:
"Desçamos ao Inferno ainda vivos, para que moribundos nele não caiamos". Este conselho dirigido a cada um não é senão a paráfrase do salmo 54: "Descendant in infernum viventes, videlicet, ne descendant morientes", a qual se encontra numa obra (erradamente) atribuída a S. bernardo (Patr. Lat. Migne, vol. 184, Col. 314 b).]
 Últimas informações de Clara
"Assim finalizou a carta de Âni sobre o Inferno. As últimas palavras eram quase ilegíveis, tão tortas estavam as letras. Quando eu acabara de ler a última palavra, a carta toda virou cinza.
Que é que lá ouço? Por entre os duros acentos das linhas que eu imaginava ter lido ressoou doce som de sino. Acordei de vez. Achei-me ainda deitada no meu quarto. A luz matinal da aurora penetrava nele. Da igreja paroquial vinham as badaladas das ave-marias.
Pois tudo era apenas um sonho?
Nunca eu sentira na Saudação Angélica, tanto consolo como após esse sonho. Pausadamente fui rezando as três ave-marias. Tornou-se-me então claro, claríssimo: ela cumpre segurar-te, à bendita Mãe do Senhor, venerar a Maria filialmente, se não quisesse ter a mesma sorte que te contou - ainda que em sonho - uma alma que jamais verá Deus.
Espantada e tremendo ainda pela visão noturna levantei-me, vesti-me depressa e fugi para a capela da casa.
O coração palpitava-me violenta e descompassadamente. Os hóspedes, ajoelhados mais perto de mim, olhavam-me preocupados. Talvez pensassem que, por haver eu corrido escada abaixo, estivesse tão excitada e vermelha.
Uma bondosa dama de Budapeste, grande sofredora, franzina como uma criança, míope, todavia fervorosa no serviço de Deus e de longo alcance espiritual, disse-me à tarde no jardim: "Senhorita, Nosso Senhor não quer ser servido no expresso".
Mas ela percebia então que outra coisa me havia excitado e ainda me preocupava. Ajuntou bondosamente: "Nada te deve angustiar - conheces o aviso de S. Teresa - nada te deve alarmar. Tudo passa. Quem possui Deus, nada lhe falta. Só Deus basta."
Quando sussurrava isso mesmo, sem qualquer tom de mestra, parecia-me ler na minha alma.
"Deus só basta". Sim, Ele há de me bastar, neste e no outro mundo. Quero ali possuí-Lo um dia, por mais sacrifícios que aqui eu tenha ainda de fazer para vencer. Não quero cair no Inferno."

Considerações Importantes: Os homens, criados livres como os anjos, escolhem usando seu livre arbítrio. Nosso Senhor não deseja que nenhuma alma se perca e não é Ele, portanto quem envia ao inferno, que é um estado de ausência de Deus. A própria alma escolhe com determinação. Da mesma forma que muitos anjos assim escolheram. Tudo Ele fez para a salvação. O grande mistério da encarnação, morte e ressurreição de Cristo.... Até a última gota de sangue..... O que mais Ele poderia fazer? Deu a própria vida! Esse mistério sobrenatural icompreensível pela natureza humana não deixa de lançar pistas pelo mundo: o manto de Guadalupe, as grandes apariçoes de Nossa Senhora (vide Fátima) os apelos de Nossa Senhora à conversão da humanidade e os insistentes pedidos de oração pela conversão dos pecadores e pelas almas dos que estão no purgatório. O valor de cada alma......Vale um Deus crucificado! Que grande mistério. A fé é graça, mas quanto mais nos voltarmos a Deus com uma simples oração, Ele volta-se também na nossa direção e vai atraindo-nos com seu amor. Amor correspondido.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

A vida depois da morte - Visões da freira Fanny Moisseieva


 Era o mês de março do ano de 1928. Por ordens do Dr. Tastari, Fanny Moissieiva, teve de ser hospitalizada em hospital católico no município de Hankow para descansar. No 5º dia da hospitalização sofreu um ataque cardíaco muito doloroso e então desmaiou. Seguimos adiante com o relato da própria irmã:
"Ao acordar, implorei ao Doutor por ajuda. Acalmou-me com medicação, mas naquela noite quando a empregada trouxe minha janta, encontrou-me imóvel como se estivesse morta. Esta relatou à enfermeira da Ala que chamou o médico de plantão e após seu exame declarou-me morta. Após ser lavada fui colocada numa mesa e coberta com um lençol. O atendente chinês encontrou algumas flores e colocou-as ao meu lado. No dia seguinte o Dr. Tastari foi informado da minha morte e foi ao necrotério. Levantou minhas pálpebras e concluiu que eu não estava realmente morta e ordenou que eu fosse colocada num quarto bem aquecido. Três dias se passaram sem que meu corpo mostrasse nenhum sinal de mudança e isso indicava que eu estava em coma. Este estado de coma durou nove dias, tempo este em que não tive nenhuma alimentação e nenhum medicamento. Não tinha pulso nem as batidas do meu coração e minha respiração era inerte. Por volta das 19:00 horas da décima noite, acordei, estiquei braços e pés e observei que estava num pequeno quarto, sendo curiosamente observada pela equipe de funcionários do hospital. Não sentia nenhuma dor, apenas como que acordando de um sono normal. Sentia, entretanto, um bem-estar em meu corpo. Quando os assistentes me viram sentar saíram correndo desordenadamente do quarto. Não entendendo o que estava acontecendo pensando tratar-se talvez de fogo e saí correndo depois deles no corredor, mas estando muito fraca tive que me apoiar no peitoril da janela. Então fiz sinais que estava com sede, pois havia perdido minha voz, mas ninguém veio me ajudar, apenas me espiavam pelas portas entreabertas. Estando fraca e trêmula não compreendia porque haviam me transferido de uma grande ala para este pequeno quarto.  Devia ter tido um sono muito profundo. A esta altura a notícia havia alcançado a Irmã da enfermaria que me encontrou sentada junto ao peitoril em condição debilitada. O médico de plantão foi notificado e fui colocada em uma cama morna para ajudar minhas condições. Pela graça de Deus Onipotente fui salva de ser enterrada viva. Mais tarde chegou o médico que me atendeu durante o ataque cardíaco, verificando que estava fora de perigo e descansando. Então uma estranha sonolência apoderou-se de mim e adormeci, mas não poderia ser chamado de sono. Senti um entorpecimento, um relaxamento físico e um estranho sentimento de duplicidade do meu ser. Não posso explicar exatamente como era, mas senti uma duplicação do meu ser e estava assustada. Nunca havia experimentado sensação tão estranha, pensamentos sucedendo-se rapidamente como ondas de uma tempestade que se move mais adiante. Meu corpo começando a desobedecer-me, meus braços paralisados e apesar de tudo isto, resisti e tentei lutar duramente pela vida. Não podia mover-me, nem mesmo respirar. Isto é o fim, pensei, então de repente um frio percorreu minhas costas, senti uma separação (do meu corpo) e reduzida a nada pensei que não mais existisse. Não posso dizer quanto tempo isto durou, quando tudo passou, eu me encontrava no meio da enfermaria. Transformada por uma força desconhecida em uma luz e em um ser celestial, (aqui a autora tentar passar a idéia de ser transformada num ser etéreo, isto é, que preenche os espaços sem ser matéria) pouco antes, quando estava na cama. Senti-me libertada de uma roupa pesada que estava usando. Involuntariamente eu abaixei meus olhos e me vi completamente despida. Então levantando meus olhos eu vi todos os pacientes restantes adormecidos, eu estava envergonhada virei para minha cama para deitar e me cobrir, num último esforço de minha letargia, eu me vi deitada imóvel e supostamente morta. Isto me surpreendeu, pois estava ali em pé e ao mesmo tempo estava imóvel na cama. Imediatamente minha consciência me avisou que tinha começado uma outra existência e a palavra "morte" soou boba e inconseqüente. Senti claramente que a morte não existe e que a vida não pára e continua. Meu corpo parecia morto, mas eu não lamentava isto de maneira alguma, somente tinha piedade e medo do que eu tinha sido. Aonde eu irei? O que farei com minha eternidade? Sentia minha audição mais "afiada", sensível ao menor ruído. Minha vista era forte e penetrante. Vi tudo em uma nova luz muito distinta. Da janela vi pessoas jovens, luminosas, voando, vestidas de branco e com suas cabeças cercadas por uma luz dourada. Cercaram-me, esperando por algo. Ao mesmo tempo uma multidão de espíritos malignos, repulsivos e feios apareceram na enfermaria. Suas caras desagradáveis refletiam a perversidade e com contorções e murmúrios encheram a enfermaria. Então com horror vi seus olhos penetrantes focados em mim enquanto avançavam em minha direção. Gritei com terror. Instantaneamente a enfermaria ficou iluminada e alguém me cobriu com um hábito claro e perfumado. Pegando-me pela mão ele disse: "Não tenha medo, enquanto você estiver comigo eles não lhe tocarão!". Mesmo porque eles já tinham desaparecido, no momento em que a luz entrou, mesmo eu não sabendo como. A voz então continuou: "Você é de nossa família, enquanto eles não têm nenhum de nós. Eu vim lhe mostrar a verdade do que existe e do que virá a acontecer".
  Satanás rebelado contra Deus Então nós começamos a subir. Em um instante a cidade desapareceu e meu companheiro disse: "Agora você viu como a vida passa do mundo para esta de eternidade, as almas dos justos e as dos pecadores". Eu vi como os espíritos do mal lutavam pelas almas dos pobres pecadores miseráveis que estavam tremendo de medo, enquanto os anjos bons ficavam à distância, as pobres almas esticavam seus braços pedindo por eles, mas em vão. Por outro lado, eu vi entre hinos e cantos jubilosos, os anjos conduzindo para o Paraíso as almas dos justos. "Por que estes estão no mundo, os espíritos bons e maus? - perguntei a meu companheiro. Ele me explicou que no começo Deus criou o mundo espiritual, com anjos imortais e deu-lhes o livre arbítrio para viver feliz ao Seu lado ou para abandoná-Lo se assim quisessem. Alguns deles revoltaram-se contra Deus com ingratidão por tudo que Ele tinha feito, o que despertou Sua ira e assim estes foram levados para longe de Sua presença, já que não eram dignos de apreciar a felicidade do paraíso. Ele amaldiçoou o arcanjo que começou a revolta, chamando-o, diabo, Satanás. Uma vez levados para fora do paraíso, os anjos caídos perderam sua santidade e assumiram uma natureza feia e horrível e se refugiaram em diferentes planetas privados da graça do Deus. Alguns caíram na terra, tornando-se inimigos eternos de Deus, e começaram então a ensinar a desobediência e toda maldade e perversidade a todas criaturas de Deus. Eu estou lhe dizendo a verdade divina e universal, Deus viu as dificuldades dos homens na terra, os quais estavam completamente sob a influência de Satanás, sem nenhuma esperança de algum dia alcançar o paraíso. Então para a salvação da raça humana, Ele enviou para a Terra, seu filho primogênito (o Deus invisível e o Espírito Santo, assim como o sol provê a luz e o calor invisíveis!).
   Os pecadores sempre temeram a morte Enquanto nós falávamos nos aproximamos de uma grande cidade e um pouco mais tarde estávamos na casa de um pecador que estava morrendo.  Por três dias ele era atormentado em sua agonia de morte e sua alma não se separava de seu corpo. Sem nenhuma piedade para o moribundo no quarto ao lado havia uma festa de bêbados soltando blasfêmias e sacrilégios. Vi um grupo de anjos tristes esperando a distância que o homem que estava morrendo pudesse clamar pela misericórdia de Deus. Mas, oh! Senhor, a esperança dos anjos foi em vão, e estes desapareceram. Então os espíritos maus tomaram conta completamente e meu companheiro disse: "A hora da morte deste pecador chegou. Coberto pelo pecado, como ele é, não entende quão terrível é a sua situação e não imagina para onde sua alma irá, só consegue pensar em si mesmo".  Estava sempre correndo, sempre procurando algo, perseguindo seus sonhos fúteis e cometendo todos os tipos de pecado. Mas se ele considerasse a sua pecaminosa vida ele saberia que isto o separaria de Deus e então ele não morreria em pecado levando consigo para a eternidade sua desobediência e contínua revolta contra Deus. O pecador morreu murmurando palavras horríveis e insensíveis. Os seus olhos fixos no além sem saber para que ele viveu no mundo. Repentinamente eu vi um horrível espírito do mal se aproximando do homem morto com uma maliciosa voz dizendo: "Você é meu!". O moribundo com um tremor frio e assustador e com um último sopro ofegante, morreu. Ele estava morto e então o espírito do mal partiu com sua alma. Involuntariamente, pensei se no momento eu parecia com aquela alma que acabara de se separar do seu corpo. Olhei para minhas mãos e meus pés e percebi que eles tinham somente o formato corporal, mas feitos de algo inconcebível ao ser humano. O silêncio era completo. Os bêbados ao lado haviam parado de fazer barulho e se aproximaram do homem e o chamavam, mas este jazia morto. Nas suas faces podia-se ver o ar de terror que ia se formando. Abandonaram então a casa e saíram para a rua, deixando o morto só. Perguntei ao meu companheiro: "Por que as pessoas temem o morto, mesmo sendo um parente ou alguém querido?" Ele respondeu, "Por que para os humanos, a morte é algo terrível, um mistério impenetrável e eles pensam que no momento da morte, o morto não mais pertence a esse mundo e instintivamente, sentem que seus espíritos podem ainda estar perto dos seus corpos e temem que a aparição da sua alma possa acusá-los, e conseqüentemente temem a morte, o que poucas pessoas entendem. Assim se a alma existe, então temem que ficarão face a face com seus pecados, e com sua própria morte, o que será inevitável, e merecerão punição. Temem a morte, mas não temem a Deus". "Pelo contrário, os bons não temem a morte porque amam a Deus em seus corações. Agora você vê que sua alma é imortal e continua a existir e quão errado é duvidar da imortalidade da alma. Por outro lado, aparições de almas de pessoas mortas não são raras. Tem havido muitas aparições de santos e milagres feitos por eles, por esta razão eles deveriam acreditar na imortalidade da alma. Venha, deixemos esta casa". "Porque todos não são felizes no mundo?" Eu perguntei a ele, "E porque há tantas pessoas ricas e outras em terrível miséria?" E ele respondeu: "A vida na Terra é apenas um lugar temporário e os homens são auxiliados no mundo. Deus em Sua infinita sabedoria tem dado aos homens inteligência e vontade de escolher entre o bem e mal, e assim esta escolha será responsabilidade de cada um. O rico terá mais problemas segundo o Evangelho, o qual diz:"É mais difícil para um homem rico entrar no reino de Deus do que um camelo passar pelo  buraco de uma agulha". Sem dúvida, os ricos são "forçados", são mais tentados a pecar pelos prazeres e confortos que os envolvem, do que os pobres e assim os preceitos do seu Criador são mais e mais ignorados. Se os ricos são bons, piedosos e praticam sua fé, é certo que sendo gratos a Deus por Sua generosidade Onipotente para com eles, serão bem recebidos no Paraíso. Assim era com Abraão que foi abençoado com opulência, com empregados e ovelhas e todos os bens de seu tempo. Ele os desfrutava e também era fiel aos Mandamentos. Deus estava satisfeito com ele, abençoava-o e o favorecia acima de outros homens mostrando a ele a Trindade Santa na forma dos três peregrinos. Nosso Senhor Jesus Cristo em uma de Suas parábolas relatou como os anjos carregaram o pobre e piedoso Lázaro para o seio de Abrão. Deus estava muito satisfeito com Abrão que era um homem bom e virtuoso e assim foi recebido no Reino dos Céus. Por sua vez o pobre não merece entrar no Paraíso a menos que ele pratique a caridade para com seu próximo. Então ele poderá contemplar as maravilhas do Céu.
   Um Cientista verdadeiro nunca é ateu! Quando voamos sobre uma grande cidade, observei povos de nacionalidades diferentes e também de cores e raças diferentes. "O que é a origem desta diversidade de seres humanos?" E ele respondeu: "Depois que Deus criou os três reinos dos animais, pássaros e dos peixes, Ele criou à Sua imagem e semelhança, Adão e Eva. Dos seus descendentes, diferentes partes do mundo foram povoadas. Desde a criação do mundo, muitas mudanças ocorreram por vontade de Deus. Muitos continentes estavam debaixo d'água e surgiram na superfície. Todas essas mudanças refletiram, gradativamente, nos povos que viviam em diferentes partes, alguns pensando que eram os únicos seres humanos da Terra. Separados por mares e oceanos, tinham se esquecido que outros existiam. O clima também mudou e aqueles que viviam em zonas tórridas foram protegidos. Deus fez suas peles pretas, vermelhas ou amarelas, de acordo com as condições climáticas em que viviam, como também diferenças em suas idéias e línguas. Deus desejou que todos O conhecessem e Lhe obedecessem". Voando sobre uma grande catedral eu percebi um feixe de luz dourada emanado da cúpula. "O que é isso?" Perguntei. Ele respondeu: "São as orações durante a elevação da Hóstia Consagrada e do Vinho Sagrado. No mais solene momento da Missa as orações se elevam diretamente a Deus e trazem muitas graças às almas tão diletas de Deus. Não há ação ou palavra que possa ser comparada com o solene momento, quando a glória e o louvor sobem até a Trindade Divina, beneficiando simultaneamente os vivos e os mortos". "Se uma pessoa ama a outra, ela naturalmente deseja tudo de bom para seu amigo. Mas somos imperfeitos, e não importa quão bem desejamos aos outros, especialmente se ele ou ela está longe, invocamos a graça de Deus, que sendo somente bondade e amor ajudará seus amigos, dependendo do quanto imploramos por essas graças. Deus as garante através de nossas preces, especialmente oferecidas na elevação das Sagradas Espécies. A oração nos guia para o caminho correto, nos encoraja e salva, de fato a oração é indispensável à alma. Ela fortalece a nossa fé e nos ajuda nas batalhas contra as adversidades. A oração inspira esperança e confiança em Deus e os olhos daqueles que rezam, vêem a bondade de Deus em tudo e em todos". "Aqueles que não rezam e que não sentem a necessidade da oração ou das coisas santas, acabam se privando do Espírito Santo. Então os espíritos do mal tomam posse deles, os cegam de tal maneira, que estes perdem sua dignidade de tal forma que a graça não pode penetrar, trazendo ódio, medo e raiva contra Deus. Esquecem ou não pensam nas suas mortes e nos seus julgamentos. O espírito do mal tenta o homem a andar nos seus caminhos e a simples menção de Deus é desagradável a ele. E o homem acaba por acreditar que não existe Deus e que o mundo é suficiente para ele. Não acredite em ateus, deixe a eles suas próprias opiniões, mas saiba que eles são a sugestão do mal". Cidades têm sido desenterradas, após terem sido enterradas por milhares de anos. Isto prova que Deus os tem punido por sua ingratidão, mostrando ao mesmo tempo seu poder onipotente. Cientistas, enquanto discutem e estudam as leis da natureza, ficam atônitos com a grandiosidade da criação, e com clareza suas descobertas são cheias de admiração pela grandiosidade do poder de Deus Onipotente. É por isso que um verdadeiro cientista nunca é ateu, pois investigando com genialidade tudo que descobre, ele reconhece O Grande Criador com toda sua alma e seu coração. Constantemente Deus observa o desenvolvimento da inteligência dessas criaturas que procuram um conhecimento maior das coisas e a melhoria da sua curta existência, e Ele as auxiliará seus esforços, com a Sua graça. Mas Deus também deseja a perfeição de suas almas, e deste modo as vai conduzindo para O reconhecerem. Conseqüentemente, o homem ao alcançar um alto patamar de cultura, algumas vezes acredita que é o único responsável por isso. Homens ingratos que não reconhecem a ajuda Divina merecem é a cólera e a punição de Deus! E Deus destrói todas as suas habilidades e permite que outra geração as aperfeiçoe, por fim o homem deve reconhecer que nada pode ser alcançado sem Deus".
  Os sofrimentos vêm (por permissão) de Deus. Após uma breve pausa ele continuou: "Agora, por exemplo, certas pessoas passam por doenças e sofrimentos, que Deus na sua infinita bondade, permite para purificação de suas almas, especialmente quando sua curta permanência neste mundo chega ao fim. Muitos ignoram o fato de que seus sofrimentos vêm de Deus. Entretanto eles poderiam clamar por Sua misericórdia e Seu Santo Nome e Ele mostraria Sua piedade para com eles. Deus deseja a salvação de todos. Cada gesto ou alusão ao nome do Senhor é uma oração que atrai a alma mais para perto de Deus". Devemos ser generosos e caridosos para com os pobres e necessitados, mas também rezar, porque sem oração e trabalho honesto não há salvação para a alma. Por esta razão, todos aqueles que atormentarem os infortunados serão punidos. Se você quer fazer alguma coisa, faça, sem provocar os outros e nunca acusar a Deus por algum infortúnio que Ele ou Seu amor, concede a você para sua salvação. Perguntei: "Mas como pode um ateu ou agnóstico ser iluminado para recerber a graça de Deus?" Repondeu-me: "Unindo-se à Igreja que é a escadaria para o Céu. Nela ele encontrará a graça, porque ela (a Igreja) glorifica ao Senhor em tudo o que ela faz. Se um ateu entrar numa igreja, elevar sua mente para Deus e disser: "Senhor, mostra-me  Tua vontade, dá-me fé e eu obedecerei", o Senhor dirá: "Eu não mandarei aqueles que vem a mim embora" . E a fé entrará em seu coração e ele terá aversão aos seus pecados. Quanto maior for sua revolta maior será sua fé e compreensão. Na Terra, cada alma é dotada com o germe da fé e o ateu encontrará o "espiritual" sem aviso.  Ele encontrará  consolação em Jesus Cristo e regozijar-se-á mais, quando mas profundamente o procurar. Preserve sua fé, ponha em Deus seu coração. A incredulidade prejudica, e é uma doença moral, como uma pestilência. O que é uma existência sem a graça de Deus?  Sem Deus não há consolação e nunca queixe-se da justiça de Deus em sua Criação. Quem somos nós para julgar Deus Onipotente? A cada fato devemos curvar nossas cabeças em sinal de gratidão. Os espíritos do mal sabem da existência de Deus, mas desejam desobedecer e permanecer maus. Nunca culpe a sorte e o destino, pois estes não existem, pois se a sua vida fosse baseada em predestinações, como poderia Deus julgar o que fez de bom e recompensá-lo ou punip-lo pelas suas transgressões? As ações humanas são o produto de sua própria vontade. A vida é uma batalha e devemos invocar a ajuda de Deus em todos os momentos. Quantos problemas difíceis têm sido resolvidos através da invocação divina. Muitos passaram por tais experiências, e devem ser gratos. Quando o homem se acha em desgraça, deve se esforçar mais para implorar a ajuda de Deus, a fim de superar isto. Ele nunca deverá se desesperar, e então a ajuda virá. Tudo é governado pela Sabedoria universal de Deus. Toda a criação veio da superior inteligência de Deus e por esta razão ao homem é dada a inteligência e a percepção do grande trabalho da criação. O homem não está privado desta sensação. Existem acontecimentos na vida de certas pessoas que supõem um extraordinário significado, quando eles podem sentir e ver a Mão de Deus. Relembremos a profecia: "Da raiz de Davi nascerá o Salvador do Mundo". Vamos relembrar a profecia da vida terrena de Jesus Cristo. No cumprimento dessas profecias percebe-se o grande projeto de Deus, portanto é errôneo comparar-se isso com a concepção de, destino. Destino não existe, esta palavra e este conceito são invenções do homem. A vida de cada um é designada de acordo com sua vontade e suas boas e más ações. O homem é senhor e soberano de sua própria vida eprecisamente por esta razão foi-lhe dada inteligência. Por esta razão deve responder a Deus por todas as suas ações praticadas durante sua vida na Terra.  Se estiver sofrendo por causa dos seus pecados deve perceber que a culpa está nele próprio. Outro grande erro é atribuir ao destino toda a ajuda que Deus lhe dá, quando, por exemplo, Deus dá Sua graça àqueles que acreditam firmemente que Deus os ama. A graça divina sempre recai sobre a humanidade, mas especialmente nos momentos mais difíceis e dolorosos, ou quando há necessidade urgente de ajuda. A vida é uma batalha e conseqüentemente em momentos decisivos, o homem deve combater com iniciativa e superar os obstáculos, os quais irão ajudá-lo a alcançar a satisfação definitiva de suas aspirações. Entretanto, quando a vontade e o desejo do homem não são capazes de suportar os acontecimentos da vida, e quando o homem é incapaz de lutar ou não pode se defender, Deus vem em seu auxílio de uma maneira maravilhosa, o que é evidente, e se torna claro para que todos possam ver. De modo particular, quando experimenta o horror de uma situação que lhe pareça insuportável. Com algumas pessoas isto acontece mais do que uma vez na vida. Muitas pessoas acreditam que os casamentos são "arranjados" no Céu, repito, destino não existe, mas certos casamentos acontecem através do desejo de Deus. Algumas uniões são a recompensa por uma vida piedosa e então a vida do casal é serena e feliz.  Outras são como uma tentativa, e Deus julga-os através da suas firmezas ou fraquezas. Então, destino não existe, entretanto, na vida de cada um há períodos de felicidade concedidos pelo Céu. Seja na paz de sua alma, seja no seu trabalho, nos negócios, ou na relação com outras pessoas e em todas as coisas, é então acompanhado pelo sucesso. Em alguns casos a felicidade não dura muito tempo e muda para pior, muitas vezes quando não se espera por isto. O homem deve adaptar-se a seus anseios e aceitar isto. Felicidade existe, mas na vida de cada um há também dramas e infortúnios. O homem deve lembrar-se que esses períodos não duram para sempre. Por esta razão, nas épocas de provação, ele deve confirmar sua fé e seu espírito, superar o infortúnio, não perder a coragem, não se desesperar nem perder a paz da sua consciência. Lembre-se que a Sabedoria Divina reina sobre todo o Universo. Cada lágrima, desventura, sofrimento, alegria são necessários a Deus para a realização dos desejos e planos do homem. Todas as criações de Deus são frutos de uma infinita inteligência superior, conseqüentemente, a vida do homem não pode privar-se do seu significado. Durante sua vida devem realizar a expressa vontade de Deus e ser agradecidos. Contemple a genialidade do mundo criado por Deus, então a vida do homem será mais significativa.

Exortações e Avisos